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THE CINNAMON PEELER by Michael Ondaatje

If I were a cinnamon peeler
I would ride your bed
and leave the yellow bark dust
on your pillow.
Your breasts and shoulders would reek
you could never walk through markets
without the profession of my fingers
floating over you. The blind would
stumble certain of whom they approached
though you might bathe
under rain gutters, monsoon.
Here on the upper thigh
at this smooth pasture
neighbor to your hair
or the crease
that cuts your back. This ankle.
You will be known among strangers
as the cinnamon peeler's wife.
I could hardly glance at you
before marriage
never touch you
-- your keen nosed mother, your rough brothers.
I buried my hands
in saffron, disguised them
over smoking tar,
helped the honey gatherers...
When we swam once
I touched you in water
and our bodies remained free,
you could hold me and be blind of smell.
You climbed the bank and said
this is how you touch other women
the grasscutter's wife, the lime burner's daughter.
And you searched your arms
for the missing perfume.
and knew
what good is it
to be the lime burner's daughter
left with no trace
as if not spoken to in an act of love
as if wounded without the pleasure of scar.
You touched
your belly to my hands
in the dry air and said
I am the cinnamon
peeler's wife. Smell me.



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quase tudo é para esquecer 

na amena ampulheta do ponteiro afiado

há que dizer nunca ao dizer pra sempre

endurecer como as espigas quando secam 
antes de ser pão

acordar na luz do verão finito

prescrutando a fonte da raiz sagrada


comp Boris Anisteld - mas podia ser Van Gogh.




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[ ~ en passant ( ici )  ]



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PASS~ AGEM - AR~ AGEM

[ ARDE - DOR - PASTA - COR


] ONDE TAMBÉM RIMA DANTE

S

AMAR

~ELO - VER D

I

A M O R













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? como dizer-te que me
par to
na biologia metalizada
dos aviões

) pa ra da no ar



? como dizer-te que me par
to
na quilha perfurante
das aves

) no lo n ge pol ar
















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baptismo















Os mais difíceis poemas onde falo de amor
são aqueles em que o amor contempla.

O amor esquece ao contemplar,
esquece que não existe e encantado olha
um raio anónimo sob o vento mais leve.

Contempla, amor, contempla.
E vai criando o nome que darás ao raio.










[ Jorge de Sena, Coroa da Terra , alterado













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[ sim, eu às vezes sou um comboio atrasado















de madrugada







entre rugas e desertos de alecrim e

estações estilhaçadas pela subida das águas

desfilam bocas de um peixe incendiário





longe



linha quase trepadeira


avermelhando lenta a cintura da árvore

assim-assim-perseguições [ grito-a-sonhar


e patinam correm rasgam mordem como leões

folhas que falo























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também eu sonhei contigo

[ não três nem seis

foram sete-as-noites-de-estrelas-seguidas

desceras ao fundo do poço vazio

onde a nossa filha tinha adormecido

] no preciso fio onde a palha luz

se nos diluía

dali

do sol após sol da noite após dia

a cada menina chamas

margarida

] nos dentes seguras continhas de vidro

berços que brincavas peninhas de riso

historinhas de ninho

e a todas cantando por dentro-de-mim assim

respond ias:


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alter acção










em janeiro dobramos a cabeça finada


aos pés que atravessam


as esquinas cegas de sangrar os dedos


à raiz da carne


arranhando a parede da magnólia gelada




e vamos sonambulamente [ bonés sem cabeça

os pés pelo avesso percorrendo a estrada



] regressados a casa revestimos a solene nudez


da eterna posição inicial


atravessando icebergs da memória


os olhos muito fechados [ contraindo bicicletas e remos


subscritas resignações e vagas afinidades


os corpos correndo alarmados gestos


] recusando a combustão do sândalo lento

recusando

o grito que oferece o vento







.











.




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barca d´alva






também

sobre o homem que dorme na ponte parada

todas as línguas se

reduzem a nada e porém volta e volta o homem

a boca-de-peixe-aberta instalada

sobre a face que dorme e se escava

a olhar nos olhos de vidro pessoas-janela

[ esqueletos em carros que afasta lá-dentro esfumados

] estação-fronteiriça sem porta de entrada

ecoa no fundo um silvo agudado

[ ai, sobre o pequeno homem-da-barca cristalizado





atravessa-os-dias o ouro tumular do rio-nada

caem domingos gelados patos bravos estranhos

levitando passagens

sobre o homem morto-quase-morto-embora

as margens nos bolsos respirem caladas

o menino que vive desde sempre acordado

pergunta dos outros e assim se aflui ao escuro do côa

[ a restos-nunca-tecidos gravuras-paleolizadas

ofertando a quem passa mais nu o desejo primeiro

do seu brilho ártico

o mais duro ocre atado a venenos vários

] fios-de-ovos sanguessugas arroz-acre e

rabanadas








.

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Alinhar ao centro



no percurso das línguas vivas

as palavras sobram caladas-nevadas

] rente s ao rio

águias e grifos [ e a primeira lágrima

que rimos,

inacessíveis como penhascos






.




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este homem gosta de mulheres-rosa! - diz anabela,

clandestina-de-si

ali-parada.

ele diz repetidamente meio a sorrir

[ só a brincar!! - repete, só a brincar

que é muito feia

,e é bem possível que tenha razão,

embora

ignore-porque-repete,

[ anabela é uma pedra-parada

a ganhar raízes escuras - contornos claros,

sendo também a mulher que bate contra as portas.

suspendendo por vezes [ a si ] na ilusão de janelas

,a bernardo, nunca disse se o achava feio ou belo

bate anabela, contra as portas da rua,

ouve os comboios que se atrasam - enferrujados,

aterrados em desterros e túneis inominados,

atravessa prateleiras a encurtar

marchas

electrocuta-se vaga no fogão desligado,

passa os olhos em yann andréa - porquê?

,música

a prescrutar tão-depressa

,na-da e

o mais intransportável: ei-la: a palavra

que se lhe fecha em rosa e borboleta,

da borboleta voando ao nó da tarde

donde estrangula enxota e pica e arde,

fazendo-se feia sem nenhum esforço

] e porém sem sarcasmo [

pra lhe fazer a vontade

deixando-o livre quanto creia na ilusão da procura

exaustiva e-terna e

tatuada

de toda a beleza im]possível - normal e codificada,,,









.


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monstro s





era uma mulher
que estranhamente vivia

em si

entrava e saía do seu ovo


ora muito feliz
ora pouco infeliz

] e não menos
es tra nha mente

este poema é só assim
assim-apenas

[ somente as sim

e

acaba mesmo subita mente
sai a mulher

acaba aqui
segura o ovo
acaba

em pi




[ foto de helmut newton







~









não sei que responda à casa

que se multiplica

extradita dilata

[ eu quero e porém não sei ainda




que responda

ao sagrado horror da casa

que se espalha do rosto

fogo imóvel no estendal

do rosto à orelha fechada


nariz algemado a
peixe de barro


] que se move a pulso

incandescendo bocas cor de incenso

[ da mão ao osso do osso ao mais-por-dentro

e de novo trama casa escama instala




cava curva-veia cava











~



saisnã - repes ]]











li uns poemas duma mulher que espera eternamente
um homem que não conhece
os poemas duram há anos e são quase todos iguais
alinham-se como um longo exílio
multiplicando-se [ calados

ela chama-lhe meu amor [ que como se sabe
em todas as línguas se diz mi amor


(( mi amor miamormiamor r r r r r r r



o homem afirma que a mulher não o conhece
e assim parecem um livro de duras ou de yourcenar

diz ele que nunca se viram nem faz ideia

a mulher faz crer que sim em tudo o que escreve
sobre a margem passados - esboços de preia-mar

] é muito intrigante e algo inquietante
como um cravo espetado em olho nu
ou pé de rosa
ou livro d´horas

[ como orquídea vermelha crescendo
por dentro do estrangeiro no peito de
camus

como voo inusitado numa só asa,

















~








[ tendo em conta:


a preocupação generalizada com os crocodilos


os sérios problemas da bicharada doméstica


relatados ao vivo pelo meu amigo legível


as ideias culinárias da minha amiga arábica

bem capaz de se pôr a caminho do animal,

[ com a fatal- as we know, vinha d´alhos!!!

o daltonismo-mirambolante do meu amigo ruela,

[ coisa bem rara nele,

e outras coisas igualmente perigosas e bizarras

que por aí li

vou agora no tapete ondulante deste deserto


[ vague-vague, va la nave,


nas miragens sem pontos cardeais

nos ventos que cruxificam e aliviam

lua vermelha ][ vermelha-lua


e sim, que sejam e ouçam devagar

de va ga ri nho, ainda,




<










~




~





parfois, la-nave-va [

parfois-la-nave-va-pas ]







estive muito tempo na floresta a brincar com

os crocodilos

não me parece que isto interesse a alguém, bem,

mas sim, assim foi: na ponta dos pés, pela esquerda,


havia uma ave que não vinha todos os dias


emudecíamos a olhar as plantas

muitas plantas: havia papoilas, orégãos e até daquelas que

comiam insectos

nada escrevemos senão com pauzinhos na areia

que o vento apagava

que a água bebia

que a luz murmurava


atravessávamos o crocodilo com-cuidado quando ele dormia


e usávamos um estranho código quando acordava

pensávamos pouco como se vivêssemos eternamente na cabeça de

alberto caeiro

e daí as vagas palavras incompletas

lembro que uma vez dissemos pa ra li sia outra flo res cer

e talvez outra vez tenhamos dito si me tria

por vezes sonhávamos juntos com as divas e as loucuras boas de fellini

com girassóis imensos - uma vez sonhei com mo ran gos

e dis seste de va gar mo ran gos

tudo isto era ao mesmo tempo encantador e

pantanoso

e aos poucos soubemos que o que era importante era

não-ver e arder-biblicamente

[ estar, enfim, sem permanecer



e voar-voar-infinitamente a cada travessia

até serenamente tudo-não-ser: tudo-perder-tudo-renascer do dia















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também nunca vi o mar


assim


] nem um pássaro tão




impossível



como o que escolhi


[ nunca o vi.




voou em mim? nem sei - nem sei - só sei que



esse tempo acabou




nada me resta na mão
vazia e


agora-assim


[ indo-vou




) vou-indo ~






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este vídeo é especificamente dedicado

aos que não o verão, assim,

aos que não têm tempo

de parar, abrir, olhar e ver

aos mais impacientes, portanto,

aos que não podem perder tempo

] e correm muito dentro de si e chegam sempre :)

[ creio no feito-efeito das coisas invisíveis ]

e depois, aos outros, os que aqui

vêm, os que dormem e vivem e são

no meu coração

[ muito além de um nome inventado.

a todos, portanto, a todos, muito-mais-que-obrigada :)

,voltar aqui, procuro sentir se não, se sim,

embora este tempo

seja para mim,

] um tempo de parar e contar pedras

decantar sons, deixar as flores beber

as amoras amadurar, as águias adormecer no ar,

deixar o vento e o sol ] talvez a chuva, entrar

um tempo de me desprender de mim, também,

? serei capaz agora de criar uma mão-cheia de vazio

um corpo de leveza que se mova-cata-vento :)

um tempo de não-ter-que-ser nada nem alguém,

? farol perdido num cabo de mistério,

casa- árvore, rio interior, erva de nascer

) amora-vermelha, aqui-além,


















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Sobre o significado de LEMNISCATA: LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.”


Lemniscato: ornado de fitas - do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).

Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente. (Texto da editora de “Pérola da cultura”)

Descobri que há várias curvas resultantes de várias equações:

a Lemniscata de Bernoulli - (x2 + y2)2 = 2a2 (x2 - y2)


a Lemniscata de Booth - (x2 + y2)2 +4y2 =4c(x2 - y2)



a Lemniscata de Gerono – x4 - x2 + y2 = 0




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Como partir










Com a leveza de saber que nada faz sentido
nem se chega, passa-se
e é passando que se vive, e se morre

Com a agudeza de uma lágrima
mergulhando no fundo de uma gota
lavando o que já se foi

Com um sorriso brando e sereno
aos quarenta e seis do segundo tempo
com muita calma, tanto ainda por acontecer

Com as mãos entrelaçadas no bolso do casaco
caminhando com um vento frio no rosto
sozinhos, sempre, lado-a-lado











[ poema de ricardo rech






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